Após muitos anos de avanços e recuos, o projeto da barragem do Alqueva se tornou realidade, determinando o futuro da aldeia da Luz. Desde o início dos planos de rega do Alentejo, sabia-se que a aldeia seria submersa, exigindo o realojamento da comunidade. A solução encontrada foi a construção de uma nova aldeia próxima à original. Esta nova aldeia foi projetada considerando as necessidades específicas da comunidade, que estava habituada a viver numa aldeia vernácula alentejana. O texto tem como objetivo caracterizar a nova aldeia da Luz, comparando-a com aldeias tradicionais para entender suas diferenças e se o seu desenho preserva o caráter da antiga.

A paisagem alentejana é marcada por extensas peneplanícies com colinas suaves e plantações uniformes de sobreiros e oliveiras, não oferecendo muitas variações visuais. Quando se aproxima da nova aldeia da Luz, a presença de um lago traz uma sensação de surpresa, pontuando a paisagem e destacando-se da monotonia da região. Ao entrar na aldeia, percebe-se uma transição clara entre o espaço natural e o espaço urbanizado, com fachadas de edifícios que parecem surgir repentinamente. As ruas são retas, com exceção de algumas flexões bem definidas. A continuidade dos telhados e a serialização das fachadas tornam a aldeia uniforme, embora existam diferentes tipologias de habitação. As ruas principais são largas e iluminadas, permitindo a visão contínua ao longo de seu comprimento. A presença do céu é constante e o pavimento é contínuo, criando a sensação de um espaço apenas para passagem, tornando as ruas frequentemente desertas.

No contexto da nova aldeia da Luz, a mudança entre o espaço exterior e o interior da aldeia é claramente demarcada, indicando uma abordagem urbana distinta da encontrada nas aldeias tradicionais. A precisão geométrica na definição das fronteiras da aldeia e no traçado das ruas destaca-se, enquanto as fachadas das casas se repetem em uma lógica serializada, o que contribui para a uniformidade visual.

Ao entrar na aldeia, a vista da paisagem alentejana é rapidamente obscurecida pelas fachadas que delimitam as ruas, restringindo a visibilidade da planície entre as casas. A clareza da fronteira entre o ambiente natural e o espaço urbanizado é intensificada à medida que se atravessa essa transição, proporcionando uma experiência de chegada bem definida à aldeia.

Dentro da aldeia, a abordagem rigorosa no desenho é evidente nas ruas retas, com poucas curvas, e na repetição das fachadas. A largura generosa das ruas principais, permitindo a visão clara do horizonte, reforça a sensação de mobilidade e movimento através do espaço. No entanto, essa amplidão também contribui para uma notável ausência de pessoas nas ruas, gerando uma atmosfera que sugere o lugar como um espaço meramente de passagem, com pouco convívio e atividades comunitárias visíveis.

Em síntese, a nova aldeia da Luz difere das aldeias tradicionais alentejanas em sua abordagem urbana e no desenho das ruas e fachadas. A uniformidade e rigidez do plano urbano contrastam com a organicidade e espontaneidade das aldeias vernáculas. Enquanto a paisagem alentejana é caracterizada por sua monotonia e planície agrícola, a aldeia da Luz destaca-se pela presença surpreendente do lago e pelo design cuidadosamente projetado para atender às necessidades da comunidade realojada.

A comparação entre a nova aldeia da Luz e as aldeias tradicionais permite analisar como o projeto se relaciona com o caráter das antigas aldeias alentejanas e como a abordagem arquitetônica e urbanística adotada pode afetar a vida e a identidade da comunidade no novo cenário. O desafio está em preservar as características culturais e sociais que fizeram parte da história da antiga aldeia da Luz, mesmo em um contexto de mudança e renovação.

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